2.07.2007

Poemas!

Vou dedicar o resto da semana à nossa Poesia, neste caso à de Fernando Pessoa, toda ela cheia de ritmo, intenidade, alma, profundidade e coração. Penso que é bom ler com calma pois alguns versos podem servir perfeitamente como inspiração para a própria vida. Acredito que em cada um de nós reside um poeta escondido, sempre com vontade de se expressar, de sentir e sempre à espera de se retractar. Com timidez, anseio, ousadia, no papel, escrita, pensamento, vento, maresia, natureza. Aqui e agora sentirá que não está só.

O Infante


Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,

E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!

Fernando Pessoa, in Mensagem

Deus

Às vezes sou o Deus que trago em mim
E então eu sou o Deus e o crente e a prece
E a imagem de marfim
Em que esse deus se esquece.

Às vezes não sou mais do que um ateu
Desse deus meu que eu sou quando me exalto.
Olho em mim todo um céu
E é um mero oco céu alto.

Fernando Pessoa


Segue o teu destino
Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

Ricardo Reis

4 Comments:

Blogger zildalarcão said...

Obrigada Zé por me lembrar Fernando Pessoa. E porque não acrescentar um enxerto do Mistério do Mundo:

O segredo da Busca é que não se acha.
Eternos mundos infinitamente,
Uns dentro de outros, sem cessar decorrem
Inúteis; Sóis, Deuses, Deus dos Deuses
Neles intercalados e perdidos
Nem a nós encontramos no infinito.
Tudo é sempre diverso, e sempre adiante
De (Deus) e Deuses:essa a luz incerta
Da suprema verdade.

6:17:00 da tarde  
Blogger ze amaral said...

Obrigado Zilda pela sua contribuição e participação.Bem haja. Penso que quem ler irá se encontrar mais um pouco. Amo a espiritualidade que havia em Pessoa.
Luz e Paz
J.M.A

1:05:00 da tarde  
Blogger zildalarcão said...


Tenho muita pena de não ter tempo útil para poder esteriorizar os meus pensamentos através da internet"on line". Este aspecto é apenas uma constatação e não um lamento...por isso vim, quando me foi possível,a terreno, agradecer-lhe por ter trazido Fernando Pessoa.Não só porque considero um dos melhores escritores portugueses mas também porque quando muito jovem(a fazer o antigo 7ºano do liceu) admirei esta personalidade, mais concretamente Àlvaro de Campos, sem conscientemente identificar a sua grande espiritualidade. Com efeito não há nada por acaso. Hoje considero a sua poesia como um "grito" ao povo lusitano...Obrigada pelo seu empenho em avivar as memórias dos valores portugueses.

11:58:00 da tarde  
Blogger ze amaral said...

Ola Zilda. Sinta-se livre de escrever sempre aquilo que pensa. Eu é que lhe agradeço a sua contribuição em deixar sempre uma mensagem. Para mim Pessoa é um Marco na nossa História e cultura e não é à toa que moro em frente à sua casa museu em Lx (só um aparte).
Bem Haja
J.M.A

12:47:00 da tarde  

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