12.04.2007

DOIS NIVEIS DE ESPIRITUALIDADE!


Dois Níveis de Espiritualidade

Irmãos e Irmãs, Eu gostaria de me dirigir ao tópico dos valores da espiritualidade definindo dois níveis de espiritualidade.
Para começar, deixe-me dizer que como seres humanos nosso objetivo básico é ter uma vida feliz; todos nós queremos experienciar a felicidade. Este é o nosso objetivo de vida. A razão é muito clara: quando perdemos a esperança, como resultado nós ficamos deprimidos e até suicidas. Portanto, toda nossa existência é fortemente enraizada na esperança. Ainda que não haja nenhuma garantia do que o futuro nos reserva, nós ainda temos a esperança de que seremos capazes de continuar vivendo. Portanto, podemos dizer que o propósito de nossas vidas, nosso objetivo de vida, é a felicidade.
Os seres humanos não são produzidos por máquinas. Nos somos mais do simples matéria, nós temos sentimentos e experiências. Por esta razão, o conforto material por si só não é suficiente. Nós precisamos algo mais profundo, que eu costumo me referir como afeição humana, ou compaixão. Com afeição humana, ou compaixão, todas as vantagens materiais que temos ao nosso dispor podem ser muito construtivas e podem produzir bons resultados. Sem afeição humana, entretanto, as vantagens materiais por si só não nos satisfazem, nem produzirão em nós qualquer medida de paz mental ou felicidade. De fato, as vantagens materiais sem afeição humana podem até criar problemas adicionais. Logo, afeição humana, ou compaixão é a chave para a felicidade humana.

O Primeiro Nível de Espiritualidade

As Religiões do Mundo e seus Valores para a Humanidade
O primeiro nível de espiritualidade, para os seres humanos de toda parte, é fé em uma das muitas religiões do mundo. Eu penso que existe um papel importante para cada uma das grandes religiões do mundo, mas para que elas façam uma contribuição efetiva para beneficiar a humanidade partindo do lado religioso, elas devem obeservar dois fatores importantes.
O primeiro desses fatores é que os praticantes individuais das várias religiões - quer dizer, nós mesmos - devem praticar sinceramente. Os ensinamentos religiosos devem ser parte integral de nossas vidas; eles não deveriam ser separados de nossas vidas. Às vezes, nós vamos a uma igreja ou templo e dizemos uma oração, ou geramos algum tipo de sentimento religioso, e então, quando saimos deste templo ou igreja, nehum desses sentimentos religiosos permanecem. Esta não é uma maneira muito apropriada de se praticar. A menssagem religiosa deve estar conosco onde quer quer estejamos. Os ensinamentos de nossa religião devem estar presentes em nossas vidas para que, quando realmente precisarmos de bençãos ou de uma força interior, aqueles ensianmentos estarão lá mesmo nessas horas; eles estarão lá quando experimentamos nossas dificuldades porque eles são uma presença constante. Somente quando a religião se tornar uma parte integral em nossas vidas que elas poderão realmente ser efetivas.
Nós também precisamos experimentar mais profundamente os significados e os valores espirituais de nossa própria tradição religiosa - nós precidsamos saber esses ensinamentos não somente no nível intelectual como também através de nossa mais profunda experiência. Algumas vezes nós compreendemos as diferentes idéias religiosas em um nível muito superfical ou intelectual. Sem aquele sentimento mais profundo, a efetividade de uma religião se torna limitada. Portanto, nós devemos praticar sinceramente, e a religião deve se tornar parte de nossas vidas.

A Importância de uma Relação Próxima entre as Religiões

O segundo fator diz respeito mais à interação entre as várias religiões do mundo. Hoje, por causa da crescente transformação tecnológica e a natureza da economia mundial, nós somos muito mais dependentes uns dos outros do que antes. Países diferentes, continentes diferentes, se tornaram mais intimamente associados uns com os outros. Na realidade a sobrevivência de uma religião depende da sobrevivência das outras. Portanto, o mundo se tornou muito mais próximo, muito mais interdependente. Como resultado, existe muito mais interação. Sob tais circunstâncias, a idéia do pluralismo entre as religiões do mundo é muito importante. Tempos atrás, quando as comunidades viviam separadamente umas das outras e religiões surgiam com um isolamento relativo, a idéia de que havia somente uma única religião era muito propícia. Mas agora a situação mudou, e as circunstâncias são inteiramente diferentes. Então, agora, é crucial aceitar o fato de que existem religiões diferentes, e para desenvolvermos um respeito mutuo genuíno entre elas, é essencial um contato mais próximo entre as várias religiões. Este é o segundo fator que propiciará as religiões do mundo serem efetivas em beneficiar a humanidade.
Quando eu estava no Tibet, Eu não tinha nenhum contato com pessoas de diferentes crenças religiosas, e por isso minha atitude em relação as outras religiões não era muito positiva. Mas desde que eu tive a oportunidade de me encontrar com pessoas de diferentes crenças e aprender atraves de um contato e experiência pessoal, minha atitude em relação às religiões mudou. Eu percebi o tanto que as outras religiões são proveitosas para a humanidade, e que potencial cada uma tem para contribuir para um mundo melhor. Nos últimos séculos a inúmeras religiões realizaram contribuições maravilhosas para a melhoria dos seres humanos, e mesmo hoje existe um vasto número de seguidores do Cristianismo, Islamismo, Judaísmo, Budismo, Hiduísmo, e assim por diante. Milhões de pessoas estão se beneficiando de todas estas religiões.
Para dar um exemplo do valor de se encontrar pessoas de diferentes fés, meus encontros com o falecido Thomas Merton me fizeram perceber que pessoa bela e maravilhosa ele era. Em uma outra ocasião Eu me encontrei com um monge Católico em Monserrat, um dos famosos mosterios da Espanha. Haviam dito que este monge vivera por vários anos em uma hermida numa colina bem atrás do mosteiro. Quando eu visitei o mosteiro, ele saiu de sua moradia isolada especialmente para se encontrar comigo. E como quis o destino, se Inglês era ainda pior que o meu, e isso me deu coragem para conversar com ele! Nós ficamos face a face, e eu lhe perguntei: "Em todos estes anos, o que você ficou fazendo naquela montanha?"Ele olhou para mim e respondeu: "Meditando sobre a compaixão, sobre o amor."Enquanto ele dizia estas poucas palavras, eu compreendi a mensagem através de seus olhos. Eu sinceramente desenvolví uma admiração genuína por esta pessoa e por outros como ele. Tais experiências têm me ajudado a confirmar em minha mente que todas as religiões do mundo possuem um potencial boas pessoas, apesar de suas diferenças de filosofia e doutrina. Cada tradição religiosa possui a sua própria mensagem maravilhosa para conduzir.
Por exemplo, do ponto de vista Budista, o conceito de um criador é ilógico; por causa das formas nas quais os Budistas analizam a causalidade, se torna um conceito difícil para um Budista compreender. Entretanto, este não é o lugar para se discutor assuntos filosóficos. O ponto importante aqui é que para as pessoas que realmente seguem estes ensinamentos nos quais a fé básica está em um criador, esta abordagem é muito eficaz. De acordo com estas tradições, o ser humano individual é criado por Deus. E mais, como eu recentemente aprendi de um de meus amigos Cristãos, eles não aceitam a teoria do renascimento, portanto, não aceitam vidas passadas e futuras. Eles aceitam somente esta vida. Entretanto, eles afirma que esta mesma vida é criada por Deus, pelo criador, e esta idéia desenvolve neles um sentimento de intimidade com Deus. O ensinamento mais importante deles é que desde que é pela vontade de Deus que nós estamos aqui, o nosso futuro depende do criador, e porque o criador é considerado santo e supremo, nós devemos amar Deus, o criador.
O que segue daí é o ensinamento de que nós devemos amar o próximo -- esta é a mensagem principal aqui. O raciocínio é que se nós amamos Deus, nós devemos amar o próximo porque eles, como nós, são criaturas de Deus. O futuro deles, como o nosso, depende do criador, portanto, a situação deles é como a nossa. Consequentemente, a fé das pessoas que dizem, "Ame a Deus", mas que elas próprias não mostram um amor genuíno pelos outros é questionável. A pessoas que crê em Deus e no amos por Deus deve demonstrar a sinceridade de seu amor por Deus através do amor direcionado para os outros. Esta abordagem é muito poderosa, não é?
Então, se examinarmos cada religião a partir de vários angulos da mesma maneira -- não simplesmente a partir de nossa própria posição filosófica mas a partir dos vários pontos de vista -- não poderá haver dúvidas de que todas as grandes religiões possuem o potencial para melhorear os seres humanos. Isto é óbvio. Através do contato próximo com aqueles de outras crenças é possível desenvolver uma atitude de mente aberta e respeito mútuo no que diz respeito às outras religiões. O contato próximo com as diferentes religiões me ajuda a aprender novas idéias, novas práticas, e novos métodos ou técnicas que eu posso incorporar em minha própria prática. Do mesmo modo, alguns de meus irmãos e irmãs Cristãos adotaram certos métodos Budistas -- por exemplo, a prática da perspicácia da mente como também as técnicas para ajudar a melhor a tolerância, compaixão, e o amor. Existe grande benefício quando os praticantes de diferentes religiões se juntam para este tipo de intercAmbio. Somando ao desenvolvimento da harmonia entre eles, existem outros benefícios a se ganhar.
Políticos e líderes nacionais freqüentemente falam sobre "coexistência" e "união". Porque não nós, pessoas religiosas, também? Eu penso que a hora chegou. Em Assis em 1987, por exemplo, líderes e representantes de várias religiões do mundo se encontraram para orar juntos, apesar de eu não ter certeza se "oração"é a palavra exata para descrever exatamente a prática de todas estas religiões. De qualquer forma, o que é importante é que representantes das várias religiões se reunem em um lugar e, de acordo com suas prórpias crenças, oram. isto já está acontecendo e é, penso eu, um desenvolvimento muito positivo. No entanto, nós ainda precisamos colocar mais esforço para desenvolver harmonia e proximidade antre as religiões do mundo, desde que sem este esforço, continuaremos a experienciar os muitos problemas que dividem a humanidade.
Se a religião fosse o único remédio para se reduzir o conflito humano, mas se este próprio remédio se tornasse uma outra fonte de conflito, seria desastroso. Hoje, como no passado, conflitos acontecem em nome da religião, por causa das diferenças religiosas, e eu penso que isso é muito, muito triste. Mas como eu mencionei antes, se pensarmos mais aberta e profundamente, nós perceberemos que esta situação no passado é inteiramente diferente da situação de hoje. Não estamos mais isolados mas somos e mvez disso, interdependentes. Hoje, entretanto, é muito importante percebermos que um relacionamento mais próximo entre as várias religiões é essencial, para que os diferentes grupos religiosos possam trabalhar mais próximos e constuírem um esforço ocmum para o benefício da humanidade.
Então, sinceridade e fé na prática religiosa por um lado, e tolerância religiosa e cooperação por outro, englobam este primeiro nível do valor da prática espiritual para a humanidade.

O Segundo Nível da Espiritualidade:

Compaixão como Religião Universal

O segundo nível de espiritualidade é mais importante que o primeiro porque não importa o tanto que uma religião possa ser maravilhosa, ela é ainda aceita somente por um número muito limitado de pessoas. A maioria dos cinco ou seis bilhões de seres humanos em nosso planeta provavelmente não praticam nenhuma religião. De acordo com suas histórias familliar elas pode se identificar como pertencentes a um ou outro grupo religioso -- "Eu sou Indu"; "Eu sou Budista", "Eu sou Cristão"-- mas lá no fundo, a maioria desses indivíduos não são necessariamente praticantes de qualquer crença religiosa. Tudo be, se uma pessoa aceita ou não uma religião é direito dela como indivíduo. Todos os grandes mestres antigos, tais como Buda, Mahavira, Jesus Cristo e Maomé falharam em tornar toda a população humana preocupada espiritualmente. O fato é que ninguém pode fazer isso. Se todos este incrédulos são chamados de ateus, não importa. De fato, de acorodo com alguns eruditos ocidentais, os Budistas são também ateus, uma vez que eles não aceitam um criador. Portanto, eu normalmente acrescento mais uma palavra para descrever esses descrentes, que é "extremo"; eu os chamo de descrentes extremos. Eles não são somente descrentes mas são exrtremos em suas visões de que a espiritualidade não tem valor algum. De qualquer forma, devemos nos lembrar que estas pessoas são também parte da humanidade, e que elas também, como todos os seres humanos, possuem desejos de felicidade -- de ter uma vida feliz e pacífica. Este é o ponto importante.
Eu creio que está tudo bem permanecer um descrente, mas enquanto você for uma parte da humanidade, enquanto você for um ser humano, você precisa da afeição humana, da compaixão humana. Sem a afeição humana até mesmo as crenças religiosas podem se tornar destrutivas. Logo, a essência, messmo na religião, é um bom coração. Eu considero a afeição humana, ou compaixão como sendo a religião universal. Tanto faz ser um crente ou um descrente, pois cada um de nós precisa da afeição humana e da compaixão., porque a compaixão nos dá força interior, esperança, e tranqüilidade. logo, isto é indispensável a cada um de nós.
Por exemplo, vamos analisar a utilidade de um bom coração no cotidiano.Se estamos de bom humor quando levantamos de manhã, se existe um sentimento acalentador que vem de dentro, automaticamente a nossa porta interna se abre para este dia. Mesmo se alguma pessoa nãp tão amigável surgir, nós não experimentaremos muita perturbação e podemos até dar um jeito de dizer algo agradável para aquela pessoa. Nós poderíamos conversar com uma pessoa não tão amigável e talvez até ter uma conversa significativa. Mas em um dia em que o nosso humor for menos positivo e estivermos nos sentindo irritado, automaticamente as nossas portas se fecham. Como resultado, mesmo se encontrarmos nosso melhor amigo, nós nos sentiremos desconfortáveis e tensos. Estes exemplos nos mostram como a nossa atitude interna faz uma grande diferença em nosssas experiências diárias. Portanto, para criarmos uma tmosfera agradável internamente, ou em nossa família, em nossa comunidade, nós temos que perceber que a derradeira fonte daquela atmosfera agradável está dentro do indivíduo, dentro de cada um de nós -- um bom coração, compaixão humana, amor.
Uma vez que criamos uma atmosfera positiva e amigável, ela automaticamente nos ajuda a reduzir o medo e insegurança. Deste modo nós podemos facilmente fazer mais amigos e criar mais sorrisos. Afinal de contas, nós somos animais sociais. Sem a amizade humana, sem o sorriso humano, nossa vida se tornaria miserável. O sentimento de solidão se tornaria insuportável. É uma lei natural -- quer dizer, de acordo com a lei natural nós dependemos dos outros para viver. Se, sob certas circunstâncias, por causa de algo errado em nós, a nossa atitude diante de nossos camaradas, on de quem dependemos, se torna hostil, como poderemos ter esperanças de obter paz mental ou um vida feliz? De acordo com a natureza humana básica, ou a lei natural, afeição-compaixão é a chave para a felicidade.
De acordo com a medicina moderna, um estado mental positivo, ou paz mental, é também benéfico para a nossa saúde física. Se estamos constantemente agitados, acabaremos por danificar a nossa saúde. Portanto, mesmo a partir do ponto de vista de nossa saúde, a tranqüilidade mental e calma são muito importantes. Isto nos mostra que o corpo físico aprecia e responde à afeição humana, a uma paz de espírito humana.
Natureza Humana Básica
Se olharmos para a natureza básica humana, nós veremos que nossa natureza é mais gentil que agressiva. Por exemplo, se examinarmos vários animais, podemos notar que animais de natureza mais pacífica possuem uma estrutura corporal correspondente, enquanto que animais predatórios possuem uma estrutara corporal que se desenvolveu de acordo com suas naturezas. Compare um tigre e um cervo: existem grandes diferenças em suas estruturas. Quando comparamos nossas próprias estruturas com as deles, veremos que nos assemelhamos mais com cervos e coelhos do que com tigres. Até os nossos dentes são mais pareceidos com os deles, não são? Eles não são como os do tigre. Nossas ulhas são outro bom exemplo -- Eu não psso pegar nem um rato somente com minha unhas humanas. Logicamente, por causa da inteligência humana, nós somos capazes de inventar e usar várias ferramentas e métodos para conseguir coisas que seriam difíceis de conseguir sem elas. Então, como você pode ver, por caus de nossa situação física nós pertencemos à categoria animal gentil. Eu penso que isso é a nossa naturea humana fundamental mostrada por nossa estrutura física básica.
Compaixão e Solução de Conflitos
Dado à nossa situação global presente, a cooperação é essencial, especialmente nos campos como a economia e a educação. O conceito de que as diferenças são importantes estão mais ou menos ultrapassadas, como foi demosntrado pelo movimento em direção a unificação da Europa Ocidental. Este movimento é, penso eu, verdadeiramente maravilhoso e na hora certa.Apesar deste trabalho conjunto entre as nações não ter acontecido por causa da compaixão ou da fé religiosa, mas sim por necessidade. Existe uma tendência crescente no mundo em direção à consciência global. Sob as atuais circunstâncias um relacionamento mais próximo com os outros se tornou um elemento para nossa sobrevivência absoluta. Logo, o conceito de responsabilidade universal baseado na compaixão e no senso de irmandade é agora essencial. O mundo está cheio de conflitos - conflitos por causa de ideologia, por causa da religião, e até conflitos dentro de famílias: conflitos baseados em uma pessoa querer uma coisa e outra pessoa querer outra coisa. Portanto se examinarmos as fontes desses muitos conflitos, descobriremos que existem muitas fontes, muitas causas diferentes, mesmo dentro de nós.
Mesmo assim, enquanto isso, nós temos o potencial e a abilidade de nos agruparmos com harmonia. Todas essas coisas são relativas. Apesar de existirem muitas fontes para os conflitos, existem, ao mesmo tempo, muitas fontes que produzem integridade e harmonia. É chegada a hora de se por mais ênfase na integridade. Aqui novamente deve existir afeição humana.. Por exemplo, voce pode ter uma ideologia ou opinião religiosas diferente de outra pessoa. Se você respeita os direitos do outro e sinceramente mostra uma atitude compassiva em relação a esta pessoa, então não importa se as idéias dele ou dela se ajustam às suas, isso é secundário. Desde que a outra pessoa acredite nelas, desde que a pessoa se beneficie daquele ponto de vista, ele ou ela está em seu mais absoluto direito. Logo devemos respeitar isso e aceitar o fato de que pontos de vistas diferentes existem. No campo da economia também, o competidor também deve receber algum lucro, porque eles também têm que sobreviver. Quando possuímos uma perspectiva mais ampla baseada na compaixão, Eu penso que as coisas se tornarão bem mais fáceis. E, de novo, a compaixão é o fator chave.
Desmilitarização
Hoje, a nossa situação mundial se acalmou consideravelmente. Felizmente, nós podemos agora pensar e conversar seriamente sobre desmilitarização, ou pelo menos a idéia da desmilitarização. Há cinco anos atrás, ou talvez, mais recente, há dois anos atrás, era difícil até se pensar nisto, mas agora a Guerra Fria entre a antiga União Soviética e os Estados Unidos terminou. Em relação aos Estados Unidos, Eu sempre digo aos meus amigos Americanos, "A força de vocês não vem das armas nucleares mas das idéias nobres de seus ancestrais de liberdade e democracia." Quando eu estive nos Estados Unidos em 1991, eu tive a oportunidade de me encontrar com o ex-Presidente George Bush. Na ocasião nós discutimos sobre a Nova Ordem Mundial sem compaixão. Eu acredito agora que a hora amadureceu para se pensar e falar sobre desmillitarização. Já existem alguns sinais de redução de armamento e pela primeira vez, desnuclearização.Passo-a-passo, nós estamos testemunhando uma redução de armas, e eu penso que o nosso objetivo deveria ser libertar o mundo - nosso pequeno planeta-- das armas. Isto não significa, entretanto, que devamos abolir todas as formas de armas. Precisamos manter algumas, uma vez que sempre existem algumas pessoas e grupos perversos entre nós. Para termos precaução e estarmos salvaguardados dessas fontes, poderíamos criar um sistema de forças policiais internacionais monitoradas regionalmente, não necessariamente pertencente a uma nação específica mas controlada coletivamente e supervisionada definitivamente por uma organização como as Nações Unidas ou algum outro corpo internacional similar. Deste jeito, com nenhuma arma disponível, não haveria perigo de um conflito militar entre nações, e não haveria também nenhuma guerra civil.
A guerra tem permanecido, tristemente, como parte da história da humanidade até o presente, mas Eu penso que a hora chegou para se mudar os conceitos que levam à guerra. Algumas pessoas consideram a guerra como algo glorioso; elas pensam que através da guerra elas podem se tornar heróis. Esta atitude comum em relação à guerra é muito errada. Recentemente um entrevistador salientou, "Os Ocidentais têm muito medo da morte, mas os Orientais parecem ter muito pouco medo da morte." À isto, meio que na brincadeira respondí, "Parece-me que, para a mente Ocidental, a guerra e a instituição militar são extremamente importantes. Guerra significa morte -- por matança, não por causas naturais. Então, parece que, de fato, são vocês que não tem medo da morte, porque vocês gostam da guerra. Nós Orientais, particularmente Tibetanos, não podemos nem começar a considerar a guerra, não podemos conceber uma batalha, porque o resultado inevitável da guerra é desastroso: morte, danos e miséria. Portanto, o conceito da guerra, em nossas mentes, é extremamente negativo. Isto significa que na verdade temos muito mais medo da morte que vocês. Você não acha?" Infelizmente, por causa de certos fatores, nossas idéias sobre a guerra são incorretas. Por isso, chegou a hora de se pensar seriamente em desmilitarização.
Eu senti isto muito forte durante e depois da crise do Golfo Persa. Naturalemtne, todos culparam Saddam Hussein, e não existe dúvidas de que Saddam Hussein é negativo -- ele cometeu muitos erros e agiu erroneamente de várias maneiras. Afinal de contas, ele é um ditador, e um ditador é, claro, algo negativo. Entretanto, sem a sua instituição mulitar, sem as suas armas, Saddam Hussein não poderia funcionar como aquele tipo de ditador. Quem supriu aquelas armas? Os fornecedores também arcam com a responsabilidade. Algumas nações ocidentais o supriram com armas sem se preocuparem com as conseqüências.
Pensar somente no dinheiro, de ter lucros com a venda de armas, é realmente terrível. Certa vez encontrei uma Francesa que havia passado muitos anos em Beirut, Líbano. Ela me contou com grande pesar que durante a crise de Beirut haviam pessoas em um lado da cidade tirando lucro na venda de armas, e que naquele mesmo dia, no outro lado da cidade, outras pessoas inocentes estavam sendo mortas por aquelas mesmas armas. Similarmente, em um lado de nosso planeta existem pessoas levando uma vida opulenta com os lucros obtidos da venda de armas, enquanto pessoas inocentes estão sendo mortas com aquelas munições pomposas no outro lado do nosso planeta. Portanto, o primeiro passo é parar de vender armas. De vez em quando eu provoco meus amigos Suecos: "Oh, vocês são maravilhosos. Durante o último período de conflitos você permaneceram neutros. E vocês sempre consideram a importância dos direitos humanos e da paz mundial. Muito bom. Mas enquanto isso vocês estão vendendo muitas armas. Isto é um pouco contraditório, não é?"
Portanto, desde a época da crise no Golfo Persa que fiz a mim mesmo um comprometimento interno -- um compromisso que pelo resto de minha vida Eu contribuirei na promoção da idéia da desmilitarização. Até onde meu país está envolvido, Eu decidí que no futuro, o Tibet deveria ser uma zona completamente desmilitarizada. E novamente, ao se trabalhar para fazer da desmilitarização uma realidade, o fator chave é a compaixão humana.

Conclusão: O Significado da Compaixão

Eu falei muito sobre compaixão sem explicar precisamente o seu significado. Eu gostaria de concluir com a explicação do significado da compaixão, que normalmente é mal-compreendida. A compaixão genuína não está baseada em nossa próprias projeções e expectativas, mas sim nos direitos do outro: independente da pessoa ser um amigo íntimo ou um inimigo, enquanto aquela pessoa deseja paz e felicidade e deseje suplantar o sofrimento, então com este fundamento nós desenvolvemos uma preocupação genuína pelos problemas dele ou dela. Isto é compaixão genuína.
Normalmente quando estamos preocupados com um amigo íntimo, nós chamamos isto compaixão. Isto não é compaixão; é apego. Mesmo no casamento, aqueles casamentos que duram muito tempo, eles duram não por cauda do apego -- apesar de estar geralmente presente -- mas porque existe compaixão também. Casamentos que duram pouco tempo acontece assim porcausa de falta de compaixão; existe somente apego emocional baseado em projeção e expectativas. Quando o único laço entre amigo íntimos é apego, aí mesmo um assunto menor pode causar a mudança de projeção de um. Assim que nossas projeções mudam, o apego desaparece -- porque aquele apego estava baseado somente na projeção e expectativa.
É possível ter compaixão sem apego -- e similarmente, ter raiva sem ódio. Portanto, você precisa clarear as distinções entre compaixão e apego, e entre raiva e ódio.Tal clareza é útil em nosso cotidiano e em nossos esforços para a paz mundial. Eu considero serem estes os valores espirituais básicos para a felicidade de todos os seres humanos, independente de se ser um crente ou um não-crente.
Por Dalai Lama

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